Budismo Shin (Jodo Shinshu)
Jodo Shinshu é o Budismo de encontros
A vida é uma sucessão de encontros.
O encontro com alguém pode expandir nosso mundo.
O encontro com algo pode nos revelar uma nova face em nós mesmos.
O encontro com o sofrimento pode nos ferir profundamente…
Através desses encontros, repetimos nossas alegrias e tristezas e, assim, vamos vivendo o nosso dia a dia.
Jodo Shinshu é o Budismo que valoriza tais encontros.
E valoriza, sobretudo, o encontro com um Buda chamado Amida.
Buda Amida vê cada um de nós como “uma vida preciosa e insubstituível”.
É o Buda que nos acolhe, não importa o que aconteça.
O encontro com Buda Amida.
Isso é também nos encontrarmos com nós próprios, as vidas preciosas sob o amparo do Buda Amida.
A esperança de poder nos encontrarmos com o Buda Amida.
A alegria de termos encontrado com o Buda Amida.
Nós, que vivemos nesta era, também somos capazes de senti-las.
Mestre Shinran, que encontrou seu lugar
Você tem algum lugar que possa chamar de seu?
Normalmente passa-se despercebido, mas, justamente por termos o nosso “lugar”, como nossa família, escola ou espaço na sociedade, é que podemos nos esforçar no dia a dia. Contudo, há momentos em que não conseguimos nos esforçar mesmo querendo. Uma pessoa que aparenta estar bem pode, na verdade, estar sendo atormentada pela solidão e tristeza, sem um “lugar” que possa chamar de seu. Quando surgem essas emoções, de que forma podemos levar a nossa vida?
Shinran Shōnin (Mestre Shinran) foi uma pessoa que se esforçou muito para encontrar o seu lugar. E, durante sua jornada, encontrou-se com um Buda chamado de “Buda Amida”. Mesmo para as pessoas que não podem renunciar à vida cotidiana para se dedicar ao treinamento espiritual com uma vida de disciplina rigorosa ou até mesmo aquelas que estão em grandes sofrimentos, o Buda Amida é aquele Buda que jurou aceitar todas as formas de vida do jeito que elas são e guiá-las à Salvação. Mestre Shinran encontrou-se com esse Buda Amida e, assim, trilhou o Caminho Budista junto a ele. Então, para nos passar com clareza os Ensinamentos do Buda Amida, transmitiu o Budismo agora chamado Jodo Shinshu. Isso ocorreu há mais ou menos 850 anos, no Período Kamakura do Japão.
Encontro com nós mesmos, da forma tal como somos de verdade
Mestre Shinran trilhou seu Caminho Budista encontrando-se com pessoas diversas, sejam monges ou leigos, velhos ou jovens, homens ou mulheres. Nessa jornada, ele se deparou com a figura humana desorientada por seus próprios “desejos mundanos” (bon’no), como a ganância e as tentações. Mestre Shinran percebeu no ser humano esse terrível coração demoníaco, que até fere os outros para satisfazer sua cobiça; e percebeu que este terrível ser humano é ele mesmo.
Isso também se aplica a nós, que vivemos nesta era. “Quero aquela bolsa de tal marca”, “Quero um smartphone novo”, “Quero mais seguidores na minha conta de redes sociais”… Desejos assim surgem diariamente nas mentes de muitas pessoas, até em monges, devido a seus corações egocêntricos. Vivemos desnorteados pela ganância no “Mundo da Ignorância”, sentindo prazer ou decepção por coisas imediatas e superficiais: essa é a nossa natureza de sofrimento.
Mestre Shinran percebeu que o Buda Amida é aquele que se esforça para salvar cada um desses seres em sofrimento, que somos nós.
“Está tudo bem do jeito que você é”: encontro com Buda Amida
Seja no Período Kamakura, seja nos tempos atuais, Buda Amida se direciona para as pessoas que sentem dificuldade de viver, sofrendo na solidão: “Está tudo bem do jeito que você é”. Assim, cria-se um lugar ao qual essas pessoas possam pertencer, entregando-lhes a verdadeira tranquilidade.
Os seres humanos vivem dentro da sociedade, interagindo com incontáveis pessoas. Às vezes, podemos pensar: “Ninguém se importa comigo, ninguém me compreende”, ou podemos ficar desanimados: “Nada dá certo na vida”. Mesmo que tenhamos dificuldade no convívio social, mesmo que pessoas insensíveis nos chamem de “perdedores”, Buda Amida abraça cada um de nós com carinho. “Sempre estou contigo”: assim, Buda Amida nos aceita da forma tal como somos.
O Buda da Voz: “Namo Amida Butsu”
Você conhece o “Namo Amida Butsu”? Talvez você pense que é uma palavra mágica para fazer desejos ao Buda. “Buda Amida, me salve, por favor”, “Namo Amida Butsu, que meu desejo seja realizado” etc.
Porém, “Namo Amida Butsu” não é um feitiço para realizar nossos desejos. É o Chamado, é o Buda Amida nos chamando: “Deixe comigo, eu te salvo com certeza, então viva com tranquilidade”. E, quando percebemos isso e juntamos as mãos para recitar o “Namo Amida Butsu” na forma de nembutsu, isso ganha um sentido de agradecimento: “Confio no Buda Amida. Levarei a minha vida confiando no Buda Amida”.
Namo Amida Butsu é o próprio Buda Amida na forma de Verbo, que está sempre conosco.
Uma vida plena e feliz
De fato, durante nossa vida há muitos sofrimentos. Podemos até nos sentir patéticos diante da nossa impotência. Mas, ao percebermos que uma grande ação que supera o mundo onde vivemos está nos acolhendo, mesmo que todas as pessoas do mundo deem as costas para nós, teremos em nós uma grande força para viver. Esse estilo de vida é “viver junto com o Buda Amida”. Vivendo aos cuidados do Buda Amida, podemos levar uma vida plena, com nosso coração em paz.
Mas talvez não chegaremos a esse ponto sozinhos. O lugar onde podemos ouvir sobre “o caminho de viver de forma plena e feliz a nossa vida finita” é um templo de Jodo Shinshu. Isso mesmo: o “encontro” que você realmente precisa para levar a vida pode estar no templo. Não importa se você tenha algum motivo especial ou não. Não quer visitar o templo? Pode ser que você encontre uma pista para viver sua vida de forma plena e feliz.
Vamos conhecer o Shinran Shōnin
Até descobrir que este mundo é permeado pelo grande Buda Amida, que salva todos as formas de vida, Shinran Shōnin teve vários “encontros”.
Encontro com as “adversidades”
Shinran Shōnin nasceu no fim do Período Heian. Essa época de transição de poder da nobreza do corte para a nobreza militar (samurais), com grandes batalhas ocorrendo frequentemente e com desastres naturais e fomes que se repetiam, foi um período muito conturbado, em que todos viviam com uma sensação de futuro incerto. Nesse meio, Shinran Shōnin passou sua infância de “adversidades”: perdeu a mãe cedo, teve que morar separado do pai e, com apenas 9 anos, teve que se tornar monge para viver.
Encontro com sua “grande angústia”
Por 20 anos, Shinran Shōnin treinou intensamente no Monte Hiei, em busca da “Iluminação”.
Todavia, tudo que se revelava eram seus desejos mundanos e maléficos. Passou a juventude numa grande angústia, pois, quanto mais se esforçava no seu treinamento, mais evidente se tornava a sua própria imagem se afastando da Iluminação ao invés de se aproximar. Um dia concluiu que esse treinamento não lhe permitiria alcançar a Iluminação e, então, aos 29 anos, resolveu abandonar o Monte Hiei.
Encontro com “Hōnen Shōnin”
Na mesma época, num lugar chamado Yoshimizu em Kyoto, um homem chamado Hōnen Shōnin pregava o ensinamento de que “todas as pessoas podem ser salvas somente com o nembutsu”. Após descer do Monte Hiei, Shinran Shōnin teve uma visão no templo Rokkakudō, em que ouviu as palavras do Príncipe Shōtoku, que o guiaram ao Hōnen Shōnin. Esse foi o “encontro” com o mestre da sua vida. O “encontro” com Hōnen Shōnin mudou a vida de Shinran Shōnin radicalmente.
Encontro com “Buda Amida”
Ao conviver com Hōnen Shōnin, o véu da Ignorância se desfez e Shinran Shōnin teve o seu “encontro” com o Buda Amida, que o acolhia como “uma vida preciosa e insubstituível”, exatamente do jeito que ele era de verdade, um ser ignorante que nem conseguia fazer o treinamento budista.
Encontrar-se com o Buda Amida é encontrar-se com o “coração caloroso” do Buda. Ao nos encontrarmos com esse coração caloroso, o “sentido” de viver muda.
O sentido de ter vivido até agora, o sentido de viver agora em diante e o sentido de estar vivendo neste exato momento… O sentido de tudo isso muda para “uma vida preciosa e insubstituível, uma vida que nos é dada e sustentada”. Esse “coração caloroso” do Buda é chamado Compaixão.
Encontro com a esposa “Eshin-ni”
Shinran Shōnin teve seu “encontro” com Eshin-ni e se casaram.
Um monge deveria renunciar à vida mundana e abandonar tudo, então o fato de se casar e constituir uma família subverteu o senso comum da época. Porém, para Shinran Shōnin, o casamento não foi um mero ato de amor pessoal. Ao estar junto com seu cônjuge e família, ele poderia viver mais próximo do “coração caloroso” de Buda Amida… assim ele pensou. Era um casal que respeitava e tinha compaixão um com outro, abraçados pelo “coração caloroso” de Buda Amida.
Reencontro com as “adversidades”
Na época que Shinran Shōnin estava com 35 anos, muitas coisas, como mal-entendidos e invejas, combinaram-se e causaram a repressão contra os ensinamentos de Hōnen Shōnin. Hōnen foi exilado para Tosa e Shinran, para Echigo. No entanto, Shinran Shōnin, que havia se “encontrado” com o “coração caloroso” do Buda Amida, não encarou a situação somente como “adversidades”, mas viu como um grande encontro.
Até então Shinran Shōnin passava os dias aprendendo com Hōnen Shōnin, na alegria sob o “coração caloroso” de Buda Amida. Mas, a partir daí, com base nas palavras de Hōnen Shōnin — “Quem ouve os Ensinamentos da Terra Pura percebe sua própria ignorância e renasce na Terra Pura” —, Shinran Shōnin passou a se autodenominar “Shinran, o Ignorante” e, enquanto transmitia os Ensinamentos do Buda Amida recebidos do mestre da sua vida Hōnen Shōnin nas terras distantes de Kyoto como Echigo e Kantō, foi descobrindo um novo significado para a vida.
Transmissão do encontro com Buda Amida
Já com mais de 50 anos de idade, Shinran Shōnin começou a escrever sobre os Ensinamentos do Buda Amida, o Buda que ele próprio “encontrou” na vida. Esta obra se chama “Kyōgyōshinshō”. Com mais de 60 anos de idade, Shinran Shōnin voltou ao Kyoto e continuou a escrever o “Kyōgyōshinshō” e muitas outras obras. Tudo isso não era direcionado somente para pessoas daquela época, mas era também para transmitir o “coração caloroso” do Buda Amida para as gerações futuras. Graças a sua dedicação, nós, dos tempos atuais, através dos seus trabalhos, somos capazes de nos encontrarmos com o “coração caloroso” do Buda Amida.
Quando nos encontramos com o coração caloroso do Buda,
percebemos que vivemos todos conectados, influenciando uns aos outros.
O coração caloroso do Buda também é transmitido para as próximas pessoas que nos encontrarmos.
Um coração que valoriza o Buda e suas Palavras também se conecta com as gerações futuras.
Ele se conecta com as felicidades de pessoas que ainda não conhecemos, tornando-se o tesouro das suas vidas.