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Budismo e Budismo Shin
Uma pergunta frequente. O que é o Budismo? É uma religião? Ou uma filosofia de vida, ciência da mente etc.
Se entendermos religião como um conjunto de dogmas e “verdades” que devem ser observados inquestionavelmente e acreditados, então o Budismo não é uma religião. O próprio Buda recomendou que seus discípulos deveriam analisar os ensinamentos e não simplesmente aceitá-los por mero respeito. Se entendermos religião como um conjunto de rituais, cerimônias e cultos, o Budismo pode ser considerado uma religião, já que isso faz parte do Budismo.
Se entendermos “filosofia” como atividade da razão e lógica humanas, ou o estudo do produto desta atividade “racional”, o Budismo não se encaixa exatamente como uma filosofia. Por outro lado, os métodos usados pelo Buda para analisar a natureza das coisas são praticamente científicos, oferecendo um sistema de conhecimento profundo do funcionamento da mente. Seus ensinamentos surgiram a partir da profunda contemplação das leis naturais de causalidade (causa e efeito). Porém, no Budismo existe, além desse Ensinamento, a Prática, que podemos aplicar no nosso dia-a-dia.
Budismo em japonês é Bukkyō【仏教】, mas frequentemente é também dito como Butsudō【仏道】,“Caminho do Buda”. O Budismo se revela quando ele é percorrido, vivenciado, e somente através da prática e das vivências é que o Budismo mostra sua verdadeira cara, passa a existir para a pessoa. O Budismo é expresso também como Tenmei-Kaigo【転迷開悟】, que significa “Conversão da ilusão em iluminação”. Numa linguagem moderna, poderia ser traduzido como “a libertação de impulsos destrutivos, egocêntricos que são convertidos, de forma apropriada, numa força vital criativa”.
Um homem chamado Sidharta Gautama, que viveu aproximadamente entre 563 a 483 antes da era oficial, não se conformava com o sofrimento humano, assim dedicou sua vida à busca da extinção desse sofrimento. Após anos de busca, alcançou a iluminação e ficou conhecido como Buda, “o Iluminado”, “aquele que despertou!”. Nasce então o Budismo, que é “Ensinamento de Buda” e ao mesmo tempo “Ensinamento para se tornar Buda – Realização da plenitude da verdade -”.
Agora, o que é Budismo Shin? O Budismo Shin tem como raiz o Budismo, nascido na Índia. Passa pela China e pelo Japão, tendo sete patriarcas desses países como reveladores da doutrina. No século XIII foi concretizado por Shinran Shonin. No século XV tornou-se popular no Japão graças a Rennyo Shinin.
O Budismo Shin desembarcou no Brasil com a imigranção japonesa há mais de 100 anos, e entre os japoneses é conhecido como “Jodo Shinshu【浄土真宗】”. Jodo(literalmente significa Terra Pura) é uma palavra que indica “Esfera da iluminação”. Shin quer dizer verdade, algo genuíno. E shu é abrigo, fundamento, centro. Poderíamos traduzir Shinshu como o “Verdadeiro abrigo”. Então, como o próprio nome “JodoShinshu” indica, o perfil da religião pode ser percebido na seguinte frase: “Na esfera da iluminação existe o nosso verdadeiro abrigo da vida”.
Hoje, no ocidente, cada vez mais “Jodo Shinshu” tem sido difundido como “ShinBuddhism”. O que significa esse Shin? Além do significado Shin【真】já descrito (verdade, genuíno), noto mais dois outros significados: Shin【新】como “novo” e Shin【信】como “fé”. Shin significando “novo” diz respeito às inovações introduzidas por Shinran Shonin, o fundador dessa escola. E Shin significando “fé” vem de Shinjin(Mente Confiante), que é o ensinamento central de Shinran.
Ah, como é difícil encontrar, mesmo em vários ciclos de nascimentos e mortes, a poderosa condição propícia do Voto Original. Difícil é receber, mesmo ao longo de milhares de milhões de eras cósmicas, a verdadeira e pura Mente Confiante (Shinjin). Se, por alguma circunstância, vier a receber a Mente Confiante, alegre-se com a condição propícia que o Buda vem criando desde o passado. Caso esteja emaranhado na rede da dúvida, inevitavelmente terá de passar mais uma vez pelo ciclo de nascimentos e mortes. De fato, são reais as palavras do Dharma que prometem sermos abraçados e nunca mais abandonados. O Dharma Correto é raro e insuperável. Ouça e reflita bem, sem deixar que reste qualquer dúvida.
Shinran Shonin, prefácio ao KYOGYOSHINSHO
“O Budismo Shin, a conclusão do Budismo Mahayana, se fundamenta no Voto Original do Buda Amida, que se atualiza aqui e agora no ser humano a fim de efetivar a suprema iluminação”.
Shinran Shonin, Mattosho (A lanterna para a Última Época do Dharma)
No Brasil, a “Comunidade Budista Sul-Americana Jodo Shinshu Honpa Hongwanji” foi criada por adeptos imigrantes para manter vivo o Budismo Shin, e esta comunidade alcançou, no ano de 2025, setenta anos de existência. Neste contexto, os adeptos não se restringem aos imigrantes e descendentes; podemos ver muitos brasileiros não-descendentes tomando o Budismo Shin como “o norte” de suas vidas. Desejo que este curso ajude a cultivar Sabedoria e Compaixão cada vez mais onde o conhecimento e esperteza predominam.
Shaku Koken Sugao
Inter-ser e Não-eu
Inter-ser traduz uma das ideias centrais do Budismo e é empregado de diferentes maneiras de acordo com o contexto.
Comecemos por um dos Sutras mais antigos “Majjima-Nikaya”, no qual Buda teria se expressado de uma maneira concisa e simbólica: “Eu vos ensinarei o Dharma. Se isto existe, aquilo vem à existência; do surgir disto, surge aquilo; se isto não existe, aquilo não vem à existência; da cessação disto, aquilo cessa”.
Já no século XX, no contexto da era globalizada, o missionário shin-budista Gyomay Kubose, que viveu nos Estados Unidos, escreve da seguinte maneira: “A vida é como uma imensa rede de malhas. Assim como todas as malhas da rede estão interconectadas, também nós estamos inter-relacionados e somos interdependentes. Vivemos uma vida mutuamente cooperativa. Tomemos meu casaco como exemplo. Ele é feito de algodão, lã e seda. O algodão talvez tenha sido plantado por agricultores do Texas debaixo do sol escaldante do verão. A seda talvez venha do Japão, onde os criadores cultivam amoreiras que alimentam o bicho-da-seda. A lã pode ter vindo dos rebanhos de ovelhas dos planaltos da Austrália. Estas matérias-primas tiveram de ser coletadas e processadas por diferentes operários do campo e das fábricas, depois transformadas em tecido e então manuseadas pelos funcionários das confecções. Todos estes materiais tiveram de ser transportados por navios, trens ou caminhões. O dono da loja precisou colocar o casaco à venda para que eu pudesse comprá-lo. Imagine só quantas pessoas estiveram envolvidas na produção deste casaco que eu uso para me manter aquecido. Centenas, milhares de pessoas estiveram envolvidas na produção de cada objeto que eu uso, nos alimentos que como e até nos materiais da casa onde moro. Eu estou apto a existir por causa do trabalho e dos serviços destas pessoas. Minha própria vida é a vida de outras pessoas e coisas.”
Budismo Essencial (A Arte de Viver o Dia-a-Dia)
Sob outra visão, agora mais ecológica e poética, apresentemos o monge zen-budista vietnamita da Ordem Tiep Hien, Thich Nhat Hanh, que além de poeta, é pacifista conhecido como fundador da Ordem do Interser – Budismo praticado sob o prisma do engajamento social. Dizem que foi ele quem inventou a palavra “interbeing” em inglês, que seria o “inter-ser” em português. “Se você é um poeta, verá claramente que há uma nuvem flutuando nessa folha de papel. Sem uma nuvem não haverá água; sem água, as árvores não podem crescer e sem árvores, você não pode fazer papel… E se você olhar mais profundamente…, você vê não somente a nuvem, mas brilho do sol nela, e cada coisa que há aqui: o trigo que se torna o pão para o madeireiro comer, o pai do madeireiro – tudo está nessa folha de papel”.
Ser Paz
“Inter-ser”: “Pratitya-samutpada” em sânscrito, Engui【縁起】em japonês, que também pode ser traduzido como “Originação Dependente”, como já descrevemos através das palavras de Buda. Alguns estudiosos dizem até que esse teria sido o conteúdo da iluminação do Buda. Porém só poderemos confirmar quando tornarmo-nos Buda.
Quando aprofundamos o conceito de Inter-ser, deparamo-nos com o Não-eu. Este ensinamento faz parte de um dos três princípios fundamentais do Budismo chamado de Shohō-Muga【諸法無我】e foi traduzido como “princípio de Interdependência” ou “princípio do Não-eu”ou “princípio da insubstancialidade”.
Este princípio seria a negação da existência de um eu único, eterno e definitivo (Jō-Itsu-Syu-Sai常一主宰). As pessoas acreditam na existência de uma “essência do eu”, uma alma que moldaria a formação do eu. Isso foi chamado de atman no Hinduísmo. O Budismo introduziu o conceito do anatman ao apontar que as coisas não se definem pelo que elas são em si, mas sim pela rede de condicionamentos e relacionamentos que as ligam ao contexto. O homem, ao se analisar, não encontra em si mesmo e ao seu redor nada a que possa se apegar como sendo seu eu, sua personalidade substancial. Segundo Buda, o homem nada mais é do que um conjunto de cinco agregados, todos impermanentes e insubstanciais: o corpo humano e seus sentidos; percepções e sensações, as ideias e imagens mentais; vontade; consciência. E por esquecer que tudo é mudança, tudo é transformação neste dinâmico processo que constitui a vida humana e projetar desejos de estabilidade e permanência em coisas efêmeras e relativas é que o homem sofre.
O homem consegue experimentar o Nirvana quando aprende a desapegar-se dos fenômenos impermanentes e relativos, aceitando-os como tais, assumindo a transformação de si mesmo e de todas as coisas. Buda diz que o Nirvana é caracterizado pela cessação do sofrimento e de suas causas, a ignorância, a cólera e as paixões descontroladas.
Shaku Koken Sugao
Compaixão, um coração sem limites
Num quadro da sala de aula onde estudei o Budismo havia estas palavras:学仏大悲心. Traduzindo livremente: “Aprender o Grande Coração Compassivo do Buda”. São palavras extraídas de um comentário escrito pelo mestre Shan-tao (quinto patriarca do Budismo Shin), onde se diz que aprender o Budismo Shin nada mais é que aprender o grande coração compassivo do Buda.
Buda diz: “Todos os seres vivos que existem, fracos ou fortes, sem exceção, compridos, grandes, médios, pequenos, sutis, grosseiros, visíveis e invisíveis, próximos e distantes, nascidos e por nascer: que todos os seres sejam felizes. Que ninguém engane ou despreze outrem, em nenhum lugar, ou devido à raiva ou inimizade deseje que alguém sofra. Tal qual uma mãe, colocando em risco a própria vida, ame e proteja o seu filho, o seu único filho; da mesma forma, abraçando todos os seres, cultive um coração sem limites. Com amor e bondade para com todo o universo, cultive um coração sem limites: acima, abaixo e em toda a volta, desobstruído, livre da raiva e da inimizade. Quer seja parado, andando, sentado, ou deitado, sempre que estiver desperto, cultive essa atenção plena: a isto se denomina uma morada divina no aqui e agora”.
–Sutta Nipata-
Inicialmente, a este coração compassivo do Buda deu-se o nome de maitri, significando “amizade” em sânscrito. Na China, foi interpretado como Jihi慈悲e na língua portuguesa o chamamos de “Compaixão”.
Na China, onde o estudo da doutrina budista sofreu avanço e sistematização, com a palavra – Jihi – houve a conjunção de dois significados: maitri e karuna. Maitri foi traduzido como “Ji” 慈e seu significado foi aprofundado como “amor materno e paterno”, expressando o desejo de ver um ser pequenino se desenvolver e crescer. E karuna (literalmente “gemido”) foi traduzido como “Hi” 悲expressando o gemido de dor extrema, como se o seu corpo estivesse sendo rasgado em dois.
Finalmente, foi estabelecida a definição de Jihi慈悲 “Compaixão” como Bakku-Yoraku抜苦与楽significando “extirpar o sofrimento e proporcionar a felicidade”. O “gemido” e o “extirpar o sofrimento” estão intrinsecamente relacionados: o gemido surgindo da angústia de não conseguir extirpar o sofrimento alheio, não conseguir se colocar no lugar de outro, de sentir a dor de outro.
Essa compaixão é uma das “quatro práticas divinas”, que são os “quatro corações sem limites”, a saber: 慈悲喜捨: “Amizade”, “Compaixão”, “Alegria” (em sânscrito: mudita) e “Equanimidade”(em sânscrito: upeksa). Podemos compreender a amizade como o esforço constante para fazer os outros felizes, a compaixão como a tentativa cuidadosa de aliviar o desconforto e a dor daqueles ao nosso redor, alegria como estar feliz por causa da felicidade dos outros, e equanimidade como aplicar, pacientemente, essas três práticas para com todos os seres.
Essas quatro práticas são imprescindíveis para a minha felicidade e a de outros. “Enquanto o mundo inteiro não for feliz, não poderá existir a felicidade do indivíduo” – já disse um poeta japonês chamado Kenji Miyazawa (1896-1933) que viveu como um Bodhisattva.
Às pessoas que seguem o caminho cultivando esses “quatro corações sem limites”, e esforçando-se para atingir a iluminação, chamamos de Bodhisattva. Este é um ideal do Budismo Mahayana e significa uma pessoa venerável, qualificada para obter a Iluminação. Não obstante, por compaixão para com os outros seres, para ajudá-los a libertarem-se, esse aspirante a Buda opta por permanecer neste mundo de sofrimento a iluminar-se.
No Budismo é dito que existem três tipos de compaixão: A Grande Compaixão, que é a Compaixão de Buda. É a Compaixão incondicional de equanimidade absoluta, livre de qualquer discriminação ou requisito, ou seja, dirigido a todos os seres vivos e em quaisquer condições. Compaixão Média é a compaixão do Bodhisattva, já descrita no parágrafo anterior. E finalmente a Pequena Compaixão, que é a compaixão que experimentamos ordinariamente.
“Nesta vida, mesmo tendo empatia e sentindo o sofrimento alheio como se fosse nosso, é difícil salvar os seres vivos conforme desejamos. Por isso nossa compaixão é incompleta. Apenas a recitação do Nembutsu manifesta a Mente da Grande Compaixão que propicia a salvação plena.” Tannishô, cap. IV
Shaku Koken Sugao
Voto do Buda
“Eu prometo, com votos incomparáveis, que hei de alcançar o caminho supremo; se nisso falhar, que eu não alcance a Iluminação. Eu prometo que, por imensuráveis kalpas, serei o grande doador e salvarei amplamente os pobres que sofrem; se não puder salvá-los, que eu não alcance a Iluminação. Eu prometo que, em me iluminando, meu Nome transcenderá as dez direções; se assim não for, que eu não alcance a Iluminação.”
(extraído do Sutra do Buda da Vida Imensurável, onde Dharmakara reconfirma os votos)
O bodhisattva chamado Dharmakara identificou-se com as dores dos seres vivos, e buscou uma saída para o sofrimento humano. Por compaixão, Dharmakara dedicou incontáveis eras de determinação sobre-humana, reflexão e prática, cumprindo 48 votos para salvar todos os seres. O resultado foi ter alcançado o estado de Buda conhecido pelo nome de Amida, Buda da Vida e Luz Imensuráveis. Este drama da salvação está contido no nome, “Namo Amida Butsu”, que ressoa por todo o universo. Qualquer pessoa, em qualquer lugar e tempo, pode entoar o nome e despertar para seus inúmeros benefícios.
“Quando eu me tornar um Buda, se os seres nas terras das dez direções, recebendo a Mente Confiante com coração sincero, desejando nascer na Terra Pura, recitarem meu nome, mesmo que apenas dez vezes, e não atingirem o nascimento, que eu não alcance a suprema Iluminação. Aqueles que cometeram os cinco graves males e caluniarem o Dharma estarão se aprisionando.”
-18º Voto-
Entre os votos de Dharmakara, o décimo oitavo voto passou a ser chamado Voto Original. “Original” no sentido de ser anterior ao tempo: de um começo sem começo, acolhendo todos os seres incondicionalmente. “Original” abrange também o significado de origem, de fundamento, de base que sustenta a nossa vida. O “Voto Original” do Buda Amida encontra-se descrito no Sutra do Buda da Vida Imensurável, e por isso esse Sutra é denominado por Shinran Shonin como “Sutra Verdadeiro”.
O Buda queria ser um Buda. Isto é o Voto Original do Buda Amida. Neste Voto, todos os seres vivos são chamados de shujo (os seres). Ou seja, o Voto Original do Buda é direcionado para a minha existência, no sentido de tornar real e efetivo o drama da salvação em mim. Vemos no ensinamento de Shinran Shonin a seguinte exortação: “ouça e confie no Voto Sincero do Buda direcionado para nós.”
Todos nós só conseguimos fazer votos e pensar no bem-estar próprio e de pessoas que nos são queridas. Se soubéssemos da existência dos votos não só dos nossos pais e dos filhos, mas também de pessoas que nem conhecemos nem sabemos de onde vieram, certamente seríamos mais humildes e o sentimento de gratidão brotaria naturalmente em nossos corações.
O 18º Voto é o Coração de Buda, e o Shin Budismo nos ensina a viver segundo esse Coração. Este Voto não é o voto feito pelo ser humano, e sim o Voto Sincero feito para o ser humano. A maioria das pessoas utiliza a religião para fazer preces e votos em benefício próprio. Shinran Shonin revela que, antes de orarmos e pedirmos alguma coisa, Buda Amida já está fazendo isso por nós.
Buda Amida fez o Voto que abarca todos, sem distinção, em qualquer lugar que estejamos, em qualquer momento da nossa vida, prometendo fazer com que atinjamos a verdadeira felicidade, vindo ao nosso encontro através do seu chamado “Namo Amida Butsu” e, enquanto não o realizasse, jurou não se tornar Buda.
Somos todos alvos do Voto de Buda Amida. Quando percebemos e aceitamos isso, acontece em nós uma profunda transformação. E isso sim, depende de cada um de nós.
Shaku Koken Sugao